quinta-feira, 12 de maio de 2016

Resenha- Dom Casmurro


 (Esse post tinha sido feito para o extinto site Parada Literária. Portanto, algumas resenhas eu transferi de lá).


 A obra Dom Casmurro foi escrita por um dos maiores escritores da literatura brasileira Machado de Assis e publicado no ano de 1899. Com a vinda do Realismo- introduzido por Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas-, uma visão sobre a sociedade e o "verdadeiro romantismo" surge. O tema mais polêmico na época e um dos mais abordados, o adultério.
Não sendo diferente isso em Dom Casmurro, porém, com um toque diferente. Machado elaborou o livro de forma complexa, entretanto apaixonante, com personagens que se diferem de livros românticos, como Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Com uma narrativa misteriosa e empolgante, uma questão mantém-se ainda uma incógnita após mais de cem anos: Capitu traiu Bentinho, afinal?
Os Personagens e suas personalidades
Quem está acostumado com uma leitura mais suave, aquelas que se dividem entre o bem e o mal (assim como as obras de William Shakespeare) e pega uma leitura como Dom Casmurro, provavelmente verá o espelho da própria sociedade em seus personagens.
Sendo um livro que a estória se passa no final do século XIX, certos valores são diferentes de atualmente. Um dos exemplos que Machado mostra, é a insegurança do homem quanto à sua honra e o comportamento da mulher- que o mais correto na época era ser submissa.
Bentinho é esse homem. Mesmo a princípio ser um garoto, ele é composto de várias inseguranças: indecisão, a falta da voz ativa- ou seja, seguir a opinião alheia, muitas vezes-, paranoia, a preocupação da imagem que sua família e a sociedade têm dele. Com a amizade de Capitu, fora sendo uma grande admiração, isso piora.
Aos quinze anos de idade, Capitolina passa uma energia de mulher segura e decidida, que não mede esforços para conseguir o que quer, mesmo que seja com seu dom de manipulação. Isso mesmo. Capitu é uma bela moça manipuladora emocional.
Expus a Capitu a idéia de José Dias. Ouviu-me atentamente. e acabou triste.
--Você indo, disse ela, esquece-me inteiramente.
--Nunca!
--Esquece. A Europa dizem que é tão bonita, e a Itália principalmente. Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me, Bentinho. E não haverá outro meio? D. Glória está morta para que você saia do seminário.
--Sim, mas julga-se presa pela promessa.
Capitu não achava outra idéia, nem acabava de adotar esta. De caminho, pediu-me que, se acaso fosse a Roma, jurasse que no fim de seis meses estaria de volta.
--Juro.
--Por Deus?
--Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis meses estarei de volta.
Quando li esta cena, imaginei Capitu com lágrimas nos olhos, aquela cena teatral toda, quase desmaiando. Não, acalme-se. Eu não odeio Capitu, mas simplesmente não pude evitar que essa era parte de minha visão. Nada negativo, sinceramente. Mesmo não ter a "amado" como Bentinho, eu concordo com ele que é algo exótico, um diferencial. Assim como diz aquela canção de Zélia DuncanCapitu.
De um lado você vem com seu jeitinho
Hábil, hábil, hábil... E pronto!
Me conquista com seu dom

De outro esse seu site petulante
WWW ponto poderosa ponto com

É esse o seu modo de ser ambíguo
Sábio, sábio
E todo encanto, canto, canto
Raposa e sereia da terra e do mar
Na tela e no ar

Você é virtualmente amada amante
Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante
Um método de agir que é tão astuto
Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
É só se entregar, é só te seguir, é capitular
Enfim, Capitu é, praticamente o oposto de Bentinho. Tem seus defeitos e não tem medo de mostrá-los; age de maneira diferente de todas as mulheres da época e não tem medo do que outros irão pensar. Hoje acredito que não é mais assim, mas para uma mulher do final do século XIX, tão segura de si assim, poderia ser pior. Poderia ser dona de seu próprio nariz! Ela percebia a insegurança de Bentinho e usava a seu favor ( e cá entre nós, mulher sabe quando um homem está inseguro).
Sendo uma mulher assim, livre-leve-e-solta, foi com esses encantos que fez Betinho se apaixonar pela tal moça. Queria casar, ter filhos, ter uma "casinha de sapê", com tudo incluso. Porém o sonho vem a se tornar um pesadelo: mamãe Glória queria Bentinho padre, queria que ele fosse para o seminário e ser devoto à Deus.
José Dias para mim era aquela pessoa que se adapta à qualquer opinião, desde que ele visse vantagem nisso. Grudava em cada pessoa que ele pudesse ver algum benefício- assim como enganar o pai de Bentinho que entendia muito bem de medicina, sendo um pseudo-intelectual na área. Não é aquele tipo ruim, assim como a prima Justina e também não muito ofuscado, como o mano Cosme. Um personagem que enrolou, enrolou, enrolou e no final das contas, Bentinho fez o trabalho todo de não entrar no seminário.
Prima Justina é uma pessoa totalmente pessimista e que vê crítica em tudo e em todos. Suas palavras sem demonstram tem razão, porém apenas encontram sempre algo que possam deixar sua opinião. Vivem e morrem assim. E como as palavras dessa mulher atrapalhou a tentativa de saída de Bentinho do seminário!
A família de Bentinho é como a própria sociedade, ou terceiros. Bentinho tem receio sobre o que eles podem pensar como não ser padre, a suposta traição de Capitu e a semelhança entre Ezequiel e Escobar.
Escobar
Pense em um homem de grandes qualidades, seguro de si, inteligente e um grande amigo em que poderia contar a todos os momentos. Essa é basicamente a visão de Bentinho sobre Escobar. Assim como tinha orgulho de amar- e ser correspondido- por uma mulher tão diferente e rara como Capitu, era assim com a amizade de Escobar.
Por um momento, após um tempo ter terminado a leitura do livro, pensei se haveria uma possibilidade de que Bentinho tivesse alguma inveja de Escobar. Ora, o amigo tinha todas as qualidades que Bentinho supostamente gostaria de ter. E afinal de contas, Escobar e Capitu, de certa forma, fariam um belo par, apenas por compartilhar valores que Bentinho estaria longe de ter.
Ele nunca deixou claro, ou fingiu não ter, mas por que por falta de tantas provas concretas Escobar se envolveria com Capitu? Bentinho escreve em um dos primeiros capítulos que Capitu não gostava nem um pouco de Escobar e somente quando a pequena amadurece que ela cria um laço de amizade.
"Embargos do Terceiro"
Capitu e Bentinho enfim amadurecem. Capitu perde um pouco daquela essência de ave-livre e aventureira. Após o casamento e principalmente a vinda do filho. Porém ainda se mantém sua segurança e havia chegado o momento em que Bentinho- agora, doutor Bento Santiago- se tornasse mais maduro, afinal já era um homem e pai de família.
Pois bem, Bento não só não consegue criar essa segurança, a mesma que sua esposa tem ou maior que ela, como também se torna uma pessoa neurótica e seu ciúme cria um tamanho inimaginável. Algumas roupas de Capitu se tornam vulgares a ele, o olhar distante da esposa diz mil coisas em sua própria mente e o menino Ezequiel...
A tal aproximação de Capitu a Escobar- algo que Bento queria há muito tempo, uma amizade de duas pessoas que ele mais amava- cria uma desconfiança descomunal em Bento, não apenas alguns comportamentos de Capitu. Porém, não era exatamente o que começa o clímax da estória. E tudo começou apenas pelo choro e olhar de Capitu sobre o corpo de seu "amante"...
Cara de quem?
Depois de tanto tentarem ter um filho, finalmente Capitu dá a luz a um menino. Ouvi dizer que Bento talvez fosse estéril, porém o autor não descreve isso no livro. Há vários casos que o casal tem dificuldade de ter uma criança. "Um menino robusto" nasce e a preocupação atual de Bento cessa. Até vir outra...
Dá-se o nome de Ezequiel, um personagem bíblico. Bento percebe que quando cresce Ezequiel consegue imitar perfeitamente qualquer pessoa, principalmente Escobar, sem esforço algum. O que não sai do pensamento é o fato de que embora os pensamentos de Bento quanto ao deslize de Capitu não sejam muito claros, encontra muita semelhança de Ezequiel a Escobar. Sendo um livro, torna-se mais complexo.
E se tivesse sido com Saninha?
Em "As Mãos de Saninha", Bento fala sobre sua atração sexual por sua "cunhada". Uma atração de um ou dois dias, descartando a imagem da moça- que em nada lembra Capitu- depois de cair a ficha de que se tratava da mulher de seu melhor amigo. Mas por um pensamento, e se Saninha não fosse esposa de Escobar? Ou então, e se Bento não tivesse tido esse momento de sanidade e seguido em frente sem se importar com seu também estado civil?
Embora que Bento tenha deixado claro que Saninha não demonstrou interesse, mas poderia ser uma traição? Talvez Capitu fosse mais inocente.
O Interior de Bento Santiago
Bentinho é um garoto encantador, mesmo cheio de inseguranças, pois demonstrava amor às pessoas de sua família e seus amigos e respeito a  outros. Era um garoto sonhador, romântico e um cavalheiro.
Com um tempo, antes mesmo de sua paranoia- ou não- sobre a traição de Capitu, tornou-se um homem mais frio e de demonstrações de afeto raras. O chocante de toda estória não é a sua acusação sobre Capitu, mas sim como ele tratou a morte de três pessoas muito importantes em sua vida. "Sim, morreu", é como comenta a morte de seu primeiro e único amor.
Sem se importar de seu estado em outro país, ou mesmo de seu filho, que tenta uma reaproximação, sem a mínima ideia do que acontecera. Com uma mistura de sentimentos negativos que criou ao longo dos anos, eis que surge o tal apelido de Dom Casmurro.
Conclusão
Talvez você, leitor, não concorde com minhas conclusões finais (ou talvez com o texto todo), porém não encontrei nada que pudesse condenar Capitu. A visão de Bentinho não passa de achismo.
O olhar de Capitu sobre o caixão e no horizonte do mar, a aparência de Ezequiel, a mudança de comportamento de sua esposa- para mim, amadurecimento-, o modo de vestir dela... tudo é um simples quebra-cabeça que ele fez questão de montar para no fim tirar sua conclusão precipitada.  Fora o fato de que Capitu não teve chance alguma de se defender- mostra claramente que ela insistiu quando Bento afirmou que Ezequiel não era seu filho. Já ele, fugiu.
O narrador fala também sobre o fato de sofrer perda de memória. Ele não se lembra de algumas circunstâncias. Será que ele realmente não se lembra ou simplesmente porque ele não aceita nada além de sua verdade e apenas se lembra do que lhe convém? Se desse para resumir toda a loucura de Bento, seria um muro: nunca entra, apenas sai quando ele deixa. As opiniões e pontos de vista não importam; nada importa além de seu pensamento e suas palavras. "Capitu traiu e pronto".
Talvez toda essa segurança da mulher, ou uma mulher ser segura na época e não demonstrar ser totalmente dependente do marido fosse algo que pudesse ser julgado que ela teria nariz para fazer o que quisesse.
Juntando isso à suposta inveja que tinha de Escobar, suas inseguranças, seu comportamento possessivo e ciumento e sua imaginação fértil, desse esse tal resultado. Apenas pela semelhança entre Ezequiel e Escobar não é o suficiente e acredito que se naquela época houvesse exame de DNA, ainda sim Bento estaria com a pulga atrás da orelha.
Com o resultado de tudo isso, Bento acaba sozinho. Sem seu melhor amigo, sem seu filho, que ainda nutria uma grande admiração por seu pai e seu eteno romance, que mesmo com os defeitos e acusações feitas por seu marido, ainda sentia o mesmo que há vinte anos.

E com uma letra bem pequena, lá estava escrito no seu epitáfio: Tentou ser, não conseguiu; tentou ter, não possuiu; tentou continuar, não prosseguiu; e nessa vida de expectativas frustradas tentou até amar… Pois bem, não conseguiu, e aqui está.

E para você, Capitu traiu Bentinho, afinal de contas?

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