segunda-feira, 23 de maio de 2016

Resenha- A Redoma de Vidro



 (Esse post tinha sido feito para o extinto site Parada Literária, assim como o Dom Casmurro. Portanto, algumas resenhas eu transferi de lá).


Atenção: Esse texto possui spoilers. Leia por sua própria conta e risco.


Algo me impediu de escrever sobre um dos livros que mais gostei de ler até hoje, mas não saberia explicar o porquê. No entanto, talvez por ele ser um tipo de leitura complexa. Não que a história possua palavras arcaicas, frases sem nexo ou até mesmo uma tradução mal feita, mas é aquele tipo de história que, se você não compreende ou se esforça para compreender os sentimentos da personagem, o livro se torna chato e cansativo após algumas páginas.
 A Redoma de Vidro é também complexo pelo seu próprio formato, a autobiografia. Para alguns, escrever sobre a própria vida é algo fácil, pois, afinal de contas, é falar sobre seus passos, como uma linha do tempo. Mas, esse livro é muito mais do que isso. Trata-se de uma personagem que possui sentimentos que, dessa forma clichê mesmo, não cabem nesse mundo tão veloz cada vez mais e tão distante de sua mente.


"Às vezes sonho com uma árvore e essa árvore é minha vida"

 Sylvia Plath não era uma romancista e sim uma poetisa. Durante alguns anos, até a sua morte, ela publicou alguns de seus poemas. A autora sofreu de depressão durante alguns anos e A Redoma de Vidro foi como um diário, porém na pele de outra personagem: Esther Greenwood, uma jovem estudante que recebe uma bolsa de estudos em Nova York.
Embora seja muito dedicada e responsável, Esther tem dificuldades em se focar e se sentir bem como as outras pessoas. Ela vive em uma época em que a mulher estava cada vez mais se inserindo no mercado de trabalho e não sabia se escolhia entre seus estudos e a vida pessoal, ou seja, o matrimônio. Após algum tempo, ela descobre que tem depressão.

Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto.
Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz, com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante [...]
Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque eu não conseguia decidir qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.

Esther começa a entrar em sua própria redoma e vários pensamentos de insegurança, indecisão e confusão mental começam a aparecer, enquanto sente a pressão de ser uma pessoa bem sucedida no futuro ou uma boa mãe e esposa. Depois de algum tempo de tortura mental diária, a garota resolve que desaparecer do mundo é a melhor solução. Ela quer, tenta, mas não consegue ficar consigo mesma, mesmo que seu inconsciente peça por socorro.

'"Deveria ficar tão animada quanto a maioria das garotas, mas não conseguia"

Quem já leu o livro- ou não- e quem já passou por essa situação, como a depressão, entende ou entenderia o que a própria autora passou. Como já havia mencionado, uma dificuldade para escrever uma história não-linear como esta requer uma delicadeza diferente, porque colocar sentimentos depressivos precisa de uma coragem, de bem lá de dentro. A personagem se envolve com várias pessoas que, por mais que tentam ajudá-la, ela se recusa e, ao mesmo tempo, se sente sozinha na multidão. 
 Ao longo da história, Esther tenta se autodestruir várias vezes, como cortar os pulsos e tomar diversos narcóticos.
É curioso como no fim a personagem entra em uma sala para não saber se vai ficar bem ou não. Como foi uma quase autobiografia de Sylvia e escrito quase no fim de sua vida (a autora se suicidou tomando uma série de narcóticos e colocou a cabeça no fogão, ligando o gás), logo podemos supor que a própria autora não sabia se iria sobreviver e destruir sua redoma ou acabar em um fim trágico, o que realmente aconteceu no final de sua própria história.
  Os personagens, algumas vezes, parecem não possuir alguma importância na história, mas possuem. Eles são a visão que Esther tem do mundo, como Buddy Willard, um antigo interesse amoroso de Esther antes mesmo de ela entrar em depressão e que ela insiste chamar de hipócrita. Na verdade, para ela, a maioria das pessoas são falsas e e hipócritas, coisas que ela pensa, pois ela já entrou uma intensidade muito grande de si mesma, então, tudo o que ela sente, é mais profundo do que qualquer outro sentimento ao seu redor.
Mais curioso ainda é como para uma parte do mundo esse livro fez tanto sucesso e para uma outra parte, nem tanto. Por exemplo, um trecho do livro é muito conhecido por seus fãs, que o tatuam na pele "I Am, I Am, I Am". Eu concluo que é um livro muito bom de se ler- isto é, se você tiver prazer nesse tipo de leitura, extremamente profunda, de uma pessoa que tenta se encontrar do início ao fim.


Eu respirei fundo e ouvi a velha pancada do meu coração. Eu soueu soueu sou- Página 199


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