quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Precisamos falar sobre John Lennon- Resenha do livro John

                               "Ele queria mudar o mundo, mas não conseguia mudar o próprio".
 Uma das frases em que Julian Lennon definiu seu pai, anos após sua morte, em 1980.  Até a chegada do livro John, escrito por sua ex-esposa Cynthia Powell (ou Lennon), não se imaginava tanto quanto John era extremamente diferente do que dizia nos holofotes. Na realidade, para fãs, até hoje é difícil acreditar que a imagem de um grande pacificador fosse tão agressiva e distante. Sabemos que Lennon era uma personalidade sincera sobre o que pensava sobre o mundo, as guerras e a política, entretanto, a sua sinceridade não estava completa quando falamos de bastidores da vida do beatle.

Uma das coisas que eu faço questão deixar claro é que minhas resenhas não são resumos. Portanto, ao ler este texto, tenha certeza que já leu o livro antes, assim não será difícil de compreender. É uma análise da vida de John, não sobre o que o livro trata.

John e Cynthia


 Vendo por fora, podemos sentir que ser esposa de um artista gênio deve ser a coisa mais incrível do mundo. Mais do que os fãs que acompanham todo o processo durante anos do ídolo, o mais próximo a estar disto é ter uma relação com o mesmo, percebendo toda sua evolução. Seria magnífico ser companheira de um ser acima dos outros, se não fosse por ser esposa de John Lennon. Cynthia, talvez, seja uma das primeiras mulheres a quebrar esse pensamento. Dizem que todo artista é perturbado ou depressivo, bem por dentro. E isso se encaixa perfeitamente a John. Estamos falando de umas das primeiras pessoas que olhou para a câmera e questionou posições políticas, o comportamento humano para com o próximo e guerras que não levava nada mais do que sofrimento. Podemos dizer que John foi o primeiro artista a esquecer que ele apenas era responsável pelo entretenimento das pessoas e utilizou de sua sinceridade e conhecimentos para bater de frente com os Estados Unidos. Honestamente, vocês podem ver essa postura em alguns artistas hoje em dia, mas não na época de Lennon.
 O que os defensores da paz não imaginavam era que a guerra fria era pior no mundo de Lennon. Cynthia e John eram pessoas totalmente diferentes: ele era um simples menino que precisava desesperadamente de atenção, fazendo piadas com as pessoas, mexendo com as meninas com seus amigos e agindo de forma diferente dos demais; enquanto Cynthia era uma garota quieta, estudiosa e sensata.
Fazia o possível para não chamar a atenção e ser a melhor aluna da faculdade de artes de Liverpool. Os opostos definitivamente se atraíam. É algo que deixa uma incógnita: sabemos que Cynthia se atraía com a presença e despreocupação do que os outros pensavam dele, mas o que atraiu John a ficar com Cynthia? O máximo que pode-se dizer é que ele a achava parecida com a atriz francesa Brigitte Bardot- que, a propósito, a admiração à bela francesa passava de uma doença.
 Os dois eram tão diferentes que Cynthia, ao contrário de John, permitia-se mudar para agradar o parceiro. Pintou o cabelo de loiro a lá Bardot e deixou-o crescer. Nunca mais iria cortar curto como fez uma vez, quando John simplesmente detestou e deixou de falar com ela direito por causa do "deslize" da companheira. Outra coisa notável no relacionamento dos dois é o ciúmes controlador de John. Era uma linha tênue entre o poder que ele achava que tinha sobre ela e a sua insegurança de que ela o deixaria- porque, de verdade, ninguém no mundo o amou tão incondicionalmente quanto ela.
 Com exceção de alguns (grandes) problemas que o casal enfrentava, a narrativa de Cynthia é um tanto confusa. Ela me fez acreditar - e, claro que, não a chamo de mentirosa- que o que John sentia por ela era muito além de atração. Havia vários momentos que John era carinhoso com Cyn. Durante a leitura, acreditei muito nas palavras dela, porém, não passava mais do que ingenuidade. Talvez a atração sexual que ele sentia por ela fosse fruto de Bardot. Era muito comum que Bardot tivesse encantado os homens britânicos naquela época, mesmo que ela não falasse inglês, principalmente na vida dos outros Beatles. No entanto, na vida de John era uma obsessão que dominava a sua realidade. A que ponto um namorado quer modelar sua namorada para que ela parecesse com sua musa? Bom, estamos falando de um rapaz entre dezenove e vinte e um anos, que não possuía maturidade- uma das coisas que eu acredito que John começou a abominar em si mesmo quando estava chegando aos seus quarenta anos.
 Quanto a Cynthia, já sabemos o que a atraiu: John era da mesma classe social que ela, mas, enquanto Cyn se preocupava com seus estudos e, principalmente, o sustento da família, após a morte de seu pai, John se preocupava com a música. Só isso. O jovem músico não tinha nenhuma preocupação, a não ser agradar sua (terrível) tia Mimi. Ela devia olhar para ele e pensar: "Ele não liga para o que falam dele? Como ele consegue mandar tudo pra merda mesmo estando na merda?". Sim, é uma postura incrível, temos que admitir isso.

Beatlemania, Julian Lennon e os anos decorrentes 


 Uma coisa que é mais compreensível na vida dos dois- e algo que até o Julian já frisou uma vez- é que a vida dos quatro era uma mistura de caos com maravilhas. Quando Cynthia e John casaram e Julian nasceu, John quase não tinha tempo para estar com a família. Sua rotina era gravação-turnês-coletiva de imprensa e quando retornava para casa, dormia quase o dia todo.
 Algumas pessoas acreditam que o comportamento de John no casamento e para com o filho era fruto do abandono de seus pais- não totalmente de sua mãe, mas também havia uma ausência. Nós temos dois pontos sobre a vida de Lennon- que eu acredito serem aceitáveis. A primeira é que, devido essa ausência dos pais de Lennon em sua vida, fizeram com que ele também fosse assim para com Julian.
É fato que John não sabia como ser um pai, não sabia como um pai agia, quais suas funções nem mesmo como conversar com o filho. Julian era uma criança que ele achava maravilhosa, mas ao mesmo tempo um serzinho assustador, que não sabia qual deveria ser sua postura. A segunda é que não justifica, de certa forma, como ele tratava seu filho. John não tinha culpa- nem Cynthia- de um nascimento-surpresa quando eram tão jovens, porém, culpa também Julian não tinha e chamar o filho de "fruto de uma bebedeira de sábado à noite" também não é a melhor forma de se tratar um filho, já que sempre afirmava que tinha reconhecido que havia errado com o crescimento dele, mas nada fazia para mudar aquilo. É para se colocar no lugar de uma criança que via o pai como um ser extraordinário~, não por ser John Lennon, mas simplesmente por ser seu pai, que o tratava como um cachorrinho que, mesmo gritando com ele, o mesmo vinha correndo para junto do pai.
 Um dos defeitos de John que Cynthia afirmou no livro é a sua forma de "apagar" aquela situação que ele achava desagradável e que não conseguia enfrentar de frente (é o que me faz refletir quando dizem que John havia amadurecido nos seus anos com Yoko, pois ainda era difícil para ele assumir algo), coisa que ele fez na morte de Stuart Sutcliff, em seus momentos que poderia sentar e conversar com Cynthia, ao se desligar da família da Inglaterra e sua relação com Paul. Ele simplesmente não assumia também o fato de amar Paul e que eles haviam sido companheiros e professores um do outro. Preferiu apagar a amizade, como se ela nunca tivesse acontecido. Normal que eles tiveram muitas brigas, coisa que todos nós sabemos, mas Paul era uma parte da vida de John e John era uma parte da vida de Paul que nem eles mesmos conseguiriam apagar. Não se pega algo e joga pela janela.
 No entanto, ao contrário de Paul, acredito que John tenha sido muito mais sincero ao que acontecia dentro da banda para o público. Sim, ele disse coisas muito cruéis, como se desfazer do talento musical de George e sobre o primeiro álbum solo de Paul, intitulado McCartney. O sentimento dos dois para um com o outro era muito mais do que uma admiração musical; havia uma admiração de personalidades opostas- algo que também ocorria entre John e Cynthia. Paul era um rapaz charmoso, calmo e com uma postura muito mais madura que John, que ignorava as regras sociais de forma geral. Mas, no fim da banda em 1970, só lembravam-se de como essas diferenças os impediram de trabalhar em harmonia, como faziam no início. Talvez, após o fim da banda, foi quando percebe-se que a arrogância de ambos era grande demais para que continuassem juntos.
 Como afirmei anteriormente, Paul era uma parte de John que ninguém poderia tirar. Quando John se juntou a Yoko Ono, a maioria das coisas que ele tinha por perto foram para o ralo. É difícil falar sobre Yoko e não haver brigas entre os beatlemaníacos. Ou Yoko acabou com a banda ou separou ele da família ou fez lavagem cerebral nele. Confesso que de tantas coisas que se diz sobre Yoko uma coisa eu tenho certeza: ela é uma pessoa manipuladora e possessiva. Tenho a sensação que ela quer ser a protagonista da vida de John. Não a coadjuvante ou o verdadeiro amor de John- que não é verdade, vide a música In My Life. Uma coisa é que algumas pessoas precisam entender é que na Família Beatles não há amor maior- isso quando falamos de amor em geral, não somente relacionamentos amorosos-, todas as pessoas, por mais passageiras que fossem, tiveram um papel principal na carreira e na vida pessoal de cada um. Infelizmente para Yoko- e felizmente para nós-, Julian e Cynthia existiram na vida de John, foram e são uma parte importante em fases da vida dele, não somente ela e Sean. Cynthia viu de perto a beatlemania nascer, correu dos paparazzis, escondeu-se e mentiu diversas vezes que não era esposa de John para guardar suas vidas pessoais.
 Uma coisa sobre a relação sobre Julian e John é que, em uma entrevista que Julian concede, diz que não viu o pai mais do que cinco vezes. Porém, Cynthia afirmou que era comum que Julian pegasse um avião para Nova York para visitar o pai. Era algo difícil, que ocorreu muitos anos após o divórcio de John e Cynthia, mas aconteceu.

Por dentro de John Winston Lennon


 John cresceu como um menino que o pai engravidou sua mãe e sumiu entre a multidão, com uma mãe que raramente o via, mas dava um carinho necessário e com uma tia que o manipulava e que "nunca tava satisfeita", como dizia John. A melhor forma de afugentar esse sentimento de rejeição era fingir ser seguro de si. Era uma pessoa sincera, porém era uma sinceridade que faltava mais. 
 Se pudesse descrever o principal defeito de Lennon seria a insegurança. Cynthia não era só a menina loira que parecia a Brigitte Bardot, mas também uma pessoa que ele se segurou tanto que precisava saber que não seria rejeitado. O seu medo principal era a traição. Não importava quantas vezes John traísse sua esposa, mas ela precisava estar em casa, para que ele retornasse e a visse sob seus olhos, sem nenhum homem ou suspeita de deslealdade. Cynthia, para aquela época, era uma esposa perfeita. Vinha de uma família tradicional, não dava tantas opiniões, obedecia ao marido e ficava em casa cuidando do filho. John tinha em casa exatamente o que os outros Beatles ansiavam: uma mulher submissa. Assim como ela afirma no próprio livro:

 De todas as pessoas em sua vida, eu era a mais constante- a que não exigia, criticava nem dava ordens, a que o amava incondicionalmente- pg. 138.

 Penso que uma mulher que cedesse aos seus caprichos não fosse exatamente o que ele queria. John era um homem que gostava de ser desafiado, ser questionado e de bater boca com quem não concordava com suas ideias. Ele poderia bater o pé, mas gostava mais do que alguém que dizia "tudo bem, você está certo". As únicas pessoas que tiveram esta postura em sua vida foram tia Mimi e Yoko. Yoko exercia um poder muito grande sobre John, tanto que ele o chamava de "mãe". Ao mesmo tempo que John sentia com a ausência de sua mãe, também tinha uma Síndrome de Édipo quanto ao seu relacionamento com Yoko. Talvez houvesse, bem por dentro, alguém que tomasse as rédeas por ele, e isso cansou em seu relacionamento com Cynthia. Porém, o que ele realmente achava sobre Cynthia será sempre uma incógnita. Suas únicas palavras foram que "as pessoas falam que eu não amei Cynthia e isso não é verdade". Mas também temos as afirmações de Cyn, que não saberemos dizer até onde é confiável.

Conclusão

  Uma coisa é fato: Cynthia tinha uma visão de que John era um semideus e ela uma mera mortal que acreditava que nunca um rebelde como Lennon olharia para ela. Não só olhou como estiveram juntos por dez anos. A princípio, Cynthia tinha, em suas mãos, todos os defeitos de Lennon. Ele a destratava, a bateu uma vez, a controlava e a acreditava que ela deveria depender somente dele. Não era o casamento que iria mudar isso. Como ela disse no livro, se ela soubesse que ela fosse passar por tudo aquilo que ela passou com John, ela teria dado meia volta e se afastado de sua vida para sempre. Nunca sabemos o futuro do lado de uma pessoa, mas podemos imaginar o futuro ao lado dessa pessoa que tinha um ciúmes doentio apenas ao conversar com outro homem ou deixar de conversar com a namorada só porque ela cortou o cabelo uma vez.
 Não acredito que ela fantasiou certas coisas. Na realidade, dá pra entender sua aflição em um relacionamento em que ela apenas faz acontecer. Além do que temos que entender que estamos falando de uma época em que a mulher tinha que aceitar todas as injúrias do marido, porque mulher de verdade o fazia mudar e não se divorciava. Entretanto, é um livro cheio de ingenuidades.
 A maioria dos beatlemaníacos tem a mesma postura que Cynthia tinha há cinquenta anos atrás, de se evitar que John tinha comportamentos inaceitáveis, mas que são escondidos atrás do gênio que ele era. Certa vez, li um texto dizendo que os fãs de John Lennon preferem esconder o que ele fez de ruim. Cynthia disse algo muito pertinente: não há como fugir de John Lennon. Mesmo as pessoas que não são fãs de Beatles sabem o quão grande ele foi e ainda é para a sociedade. Mesmo Julian, o filho negligenciado pelo pai, reconhece que ele era incrível musicalmente falando. Não é que os fãs preferem apagar isso, mas o ícone John Lennon é tão grande que é difícil olhar para uma pessoa como se ele tivesse vindo ao mundo como um simples babaca, um mortal. Ele era um ser humano, claro, mas não era um ser humano comum. Não era uma pessoa que deixava de dizer certas coisas sobre os Estados Unidos ou sobre o mundo, porque tinha medo nem mesmo deixava de fazer algo por tinha receio do que as pessoas poderiam pensar dele. Quem nunca procurou saber sobre John Lennon de verdade ou ouviu suas músicas nunca entenderia o que quero dizer.
 Quanto a seu relacionamento com Yoko, não, ela não acabou com os Beatles, mas ela o tirou do mundo, aos poucos. Ele tinha uma parcela de culpa, tinha a mania de jogar certas responsabilidades na frente de um caminhão, mas ela tirou coisas dele que ninguém pode recolocá-las, como cortar quase que por completo o relacionamento dele com suas irmãs- que, quem conhece Lennon, sabe que ele tinha um carinho desmedido por elas. Da mesma forma que há fãs que não aceitam que ele fez coisas ruins, é de lamentar que os que não compreendem que Yoko fez isso e outras coisas. Não tem a ver em respeitar o relacionamento que eles tiveram e que John a amava, mas que muitas coisas na vida de Lennon não brilhava como nos holofotes, assim como a insistência dos dois em querer mostrar para a imprensa que eles eram o exemplo de casal perfeito e tudo era "paz e amor".
 É muito mais difícil para um fã aceitar que as coisas não tinham o mesmo brilho das canções que no dia a dia. Mas não tão difícil em aceitar que ele teve um impacto maior que as coisas ruins que fez. Ele conseguiu atingir mais do que outros artistas e mobilizar milhares pela união mundial. É fácil de compreender se ser mais sensato em olhar o lado criança que John tinha.

domingo, 14 de agosto de 2016

A Polêmica do livro "A Marca de uma Lágrima", de Pedro Bandeira.

Nesta quinta feira, houve uma pequena polêmica envolvendo o livro A Marca de uma Lágrima, do autor Pedro Bandeira, sobre a sexualidade contida na obra. Começou quando o Colégio Santa Maria, em Belo Horizonte, recebeu reclamações de pais após a leitura do livro. Segundo os pais, o livro contém muito erotismo e pode “causar comportamentos irreparáveis, presentes e futuros nos alunos da escola, reconhecidamente católica”. Portanto, os pais criaram um abaixo-assinado para que o livro fosse retirado da instituição particular.
É um caso que me chamou atenção. Talvez seja um assunto que passe reto para outras pessoas e o próprio Bandeira não queira responder sobre isso, porém não se pode negar que quem é escritor ou amante de literatura não reflita sobre essa censura.

Quem é Pedro Bandeira

 Para quem não conhece o autor, Pedro é um escritor e jornalista, nascido em 9 de março de 1942, em Santos. Bandeira já se envolveu com teatro amador, sendo cenógrafo, intérprete e encenador. Antes disso. como jornalista, trabalhou para o jornal imparcial Última Hora, fundado no Rio de Janeiro pelo jornalista russo-brasileiro Samuel Wainer, para apoiar a segunda candidatura dom ex- presidente Getúlio Vargas, contra Carlos Lacerda. Trabalhou também na Editora Abril, escrevendo para várias revistas.
 Mesmo tendo escrito livros para adultos, Bandeira é mais conhecido por seu público ser infanto-juvenil. Entre suas obras mais conhecidas estão A Droga da Obediência (2003), O Fantástico Mistério de Feiurinha (1998) e A Marca de uma Lágrima (1985), que é o objeto de polêmica.
 Ele também já foi premiado com o Prêmio Jabuti e o Prêmio APCA (
Associação Paulista de Críticos de Arte), que premia várias categorias, como Artes Cênicas, Dança, Literatura, entre outros.


A Marca de uma Lágrima


 Escrito em 1985, conta a história de Isabel, uma menina de 14 anos e tem baixa auto estima e é apaixonada por seu primo Cristiano. Cristiano, entretanto, é apaixonado pela melhor amiga de Isabel, Rosana. O livro aborda muito sobre conflitos na adolescência, a falta de confiança em si mesmo e aquela coisa de "primeiro amor".
Capa atual do livro

 Mesmo tendo esses temas em questão, o livro não foi o suficiente para agradar os pais de alunos da sétima séria do Colégio Santa Maria. Isso porque o livro possui textos "fortes" para adolescentes. Os trechos estão abaixo:



"Não seriam atraentes aqueles pequeninos seios que muito bem poderiam ter servido de fôrma para taças de champanhe? ‘Vem, Cristiano, tomar do meu champanhe... Vem me buscar inteirinha, Cristiano..."
"Não conseguia lembrar-se do primo em meio às pálidas recordações dos garotos de sua infância. Teria sido aquele que se divertia batendo nos menores? Ou seria aquele outro que teimava em tirar sua calcinha? — Quer tirar minha calcinha agora, Cristiano?"


 Parece ser uma coisa muito boba- que é, na verdade- mas, a coisa ficou em um nível de que, se o colégio não retirasse o livro das prateleiras, os pais iriam tirar seus filhos do colégio. Segundo a instituição, houve uma mudança de direção e pedagógica no colégio, portanto, logo uma mudança em toda a estrutura, inclusive das obras que estão na biblioteca.

Polêmica? - Conclusão

 Quando eu procurei saber mais sobre essa noticia, eu achei ela como uma daquelas notícias bizarras que a gente costuma encontrar na internet, mas ela ficou bastante na minha cabeça e comecei a refletir sobre o caso- até porque, como escritora, isso dá pra refletir muito. Para começar, o Bandeira não é um escritor qualquer que chegou onde está apenas por sorte. Além de jornalista, ele estudou sobre psicologia e educação para entender esse universo juvenil- que tipo de escritor escreveria sobre achismos? Não que não exista, mas para uma pessoa que está nesta carreira há muito anos, é reconhecido no país inteiro e ainda é premiado, seria algo estranho.
 Segundo que pensei naquela forma de educar de hoje em dia que está tão na moda. Filhos pequenos na frente da tv e computador, assistindo e acessando coisas que não são apropriadas para a sua idade sem monitoramento e reproduzindo essas mesmas coisas na realidade (ou virtualmente). "Ah, mas não é fácil criar filhos". Exatamente. Mas para criar crianças para colocá-las na frente da televisão, entre outros aparelhos de distração- não estou dizendo que deve-se proibir isso completamente- e depois culpar essas tecnologias porque você não consegue educá-las ou, pelo menos, aceitar que você não possui essa capacidade nem quer melhorar isso, é porque tem algo de errado. Isso é algo extremamente comum hoje em dia. Por que colocar seu filho para assistir novela às 21:00 horas sendo que isso é horário para ele estar na cama? Fora que, atualmente, temos classificação na tv, antes da programação começar. (Outra coisa e, consequentemente, outro lado da situação, é acreditar que TODA violência assistida vai criar um pequeno sociopata em casa. Outra forma de culpar outras coisas, senão a sua educação).
 Terceira e última. É claro que temos que pensar que estamos falando de um colégio católico, que, obviamente possui pessoas conservadoras e cristãs- sim, pessoas que possuem valores do início do século 20. Porém não dá pensar como é a educação dessas crianças: provavelmente não possuem direito de falar abertamente sobre sexo, são criadas a terem um comportamento conservador, onde precisam viver em uma sociedade que está se abrindo mais, mas tem que se comportar de acordo como foi criado e o direito de não se expressar. A consequência é crescer um adulto que, provavelmente não irá compreender os outros. Mas, voltando para o livro, quero dizer que, se há uma censura apenas por causa de um texto- e, pasmem, querem até tirar a criança do colégio- é óbvio que é por conta da educação. Porém, mesmo que haja este tipo de educação ainda, não é possível frear a sexualidade na adolescência. Nós estamos falando de um livro de 1985. Hoje em dia não tem aquela necessidade de você esconder sua revista Playboy dos seus pais; temos a internet aberta e livre. Mesmo todo esse conservadorismo, eu não acredito tanto numa tirania por parte dos pais dessas crianças, mas uma inocência de acreditar que seus filhos são- ou serão- iguais a eles ou que seus filhos são muito ingênuos e que somente outras crianças que fazem coisas do tipo, falar sobre sexo com seus amigos, "tocar" o (a) amigo (o), procurar saber mais sobre o assunto. É uma pena que os pais ainda precisam podar- de forma errada as crianças- e censurá-las. Mas, no fim das contas, acabam descobrindo que não há como esconder tudo para sempre.

Fontes:
O Tempo
Info Escola


 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Pequeno Príncipe ganha exposição no Mosteiro São Bento

   A Exposição

  Um dos livros mais queridinhos pelos leitores acaba de ganhar uma exposição no Mosteiro São Bento, em São Paulo. Esta é a 2º amostra de exposição no Mosteiro, que disponibiliza o livro gratuitamente (para quem não sabe, o livro virou domínio público em janeiro do ano passado).
 Para visitar a exposição, há duas vias de ingressos: o Ingresso Gratuito ou o Ingresso Especial + o livro autografado, que custa R$ 55,00. O Mosteiro São Bento está aberto de segunda a sexta, das 9:00 hrs às 17:00 hrs e aos sábados as 9:00 ao meio dia. A exposição abre hoje e termina no dia 31 de julho.

O Mosteiro São Bento


O Mosteiro foi fundado em 1600, por Simão Luis, conhecido Frei Mauro Teixeira, que era discípulo do Padre José de Anchieta e conheceu o Cacique Tibiriçá. Tibiriçá foi um personagem muito importante na história de São Paulo, pois o Cacique se aliou aos portugueses, até a fundação do Estado, em 1554. A princípio, onde antes se encontrava a Taba do Cacique Tibiriçá, foi construída uma capela em homenagem a Nossa Senhora de Montserrat, porém em 1660, o Mosteiro começa a ser construído.
 Esta não é a primeira construção do Mosteiro, sendo a que hoje conhecemos como a quarta, que foi reformulada entre 1910 e 1922. O bandeirante Fernão Dias doou parte de seus bens ao Mosteiro e hoje seus restos mortais estão lá desde então.
 Atualmente, o Mosteiro possui outras edificações, como o Mosteiro de São Bento de Sorocaba, o Mosteiro São Bento de Jundiaí e outros dois em Santana do Parnaíba e Santos, possuindo um acervo de 115.000 livros, bem cuidados por monges, com temas diversos, como filosofia, teologia, artes, literatura e sociologia.

Endereço e Horários da Exposição


Data: 1 de julho a 31 de julho.
Endereço: Largo de São Bento, centro, próximo a Estação de metrô São Bento.
Horários: Segunda a sexta, das 9:00 hrs às 17:00 hrs. Sábados das 9:00 hrs ao meio dia.
Retirada dos ingressos (Gratuito ou Especial): Ingressos Exposição

Foto: Sympla.
Fontes: Sympla, site oficial do Mosteiro, site oficial de São Paulo.

O Pequeno Príncipe vira Domínio Público: Catraca Livre

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Resenha- A Redoma de Vidro



 (Esse post tinha sido feito para o extinto site Parada Literária, assim como o Dom Casmurro. Portanto, algumas resenhas eu transferi de lá).


Atenção: Esse texto possui spoilers. Leia por sua própria conta e risco.


Algo me impediu de escrever sobre um dos livros que mais gostei de ler até hoje, mas não saberia explicar o porquê. No entanto, talvez por ele ser um tipo de leitura complexa. Não que a história possua palavras arcaicas, frases sem nexo ou até mesmo uma tradução mal feita, mas é aquele tipo de história que, se você não compreende ou se esforça para compreender os sentimentos da personagem, o livro se torna chato e cansativo após algumas páginas.
 A Redoma de Vidro é também complexo pelo seu próprio formato, a autobiografia. Para alguns, escrever sobre a própria vida é algo fácil, pois, afinal de contas, é falar sobre seus passos, como uma linha do tempo. Mas, esse livro é muito mais do que isso. Trata-se de uma personagem que possui sentimentos que, dessa forma clichê mesmo, não cabem nesse mundo tão veloz cada vez mais e tão distante de sua mente.


"Às vezes sonho com uma árvore e essa árvore é minha vida"

 Sylvia Plath não era uma romancista e sim uma poetisa. Durante alguns anos, até a sua morte, ela publicou alguns de seus poemas. A autora sofreu de depressão durante alguns anos e A Redoma de Vidro foi como um diário, porém na pele de outra personagem: Esther Greenwood, uma jovem estudante que recebe uma bolsa de estudos em Nova York.
Embora seja muito dedicada e responsável, Esther tem dificuldades em se focar e se sentir bem como as outras pessoas. Ela vive em uma época em que a mulher estava cada vez mais se inserindo no mercado de trabalho e não sabia se escolhia entre seus estudos e a vida pessoal, ou seja, o matrimônio. Após algum tempo, ela descobre que tem depressão.

Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto.
Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz, com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante [...]
Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque eu não conseguia decidir qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.

Esther começa a entrar em sua própria redoma e vários pensamentos de insegurança, indecisão e confusão mental começam a aparecer, enquanto sente a pressão de ser uma pessoa bem sucedida no futuro ou uma boa mãe e esposa. Depois de algum tempo de tortura mental diária, a garota resolve que desaparecer do mundo é a melhor solução. Ela quer, tenta, mas não consegue ficar consigo mesma, mesmo que seu inconsciente peça por socorro.

'"Deveria ficar tão animada quanto a maioria das garotas, mas não conseguia"

Quem já leu o livro- ou não- e quem já passou por essa situação, como a depressão, entende ou entenderia o que a própria autora passou. Como já havia mencionado, uma dificuldade para escrever uma história não-linear como esta requer uma delicadeza diferente, porque colocar sentimentos depressivos precisa de uma coragem, de bem lá de dentro. A personagem se envolve com várias pessoas que, por mais que tentam ajudá-la, ela se recusa e, ao mesmo tempo, se sente sozinha na multidão. 
 Ao longo da história, Esther tenta se autodestruir várias vezes, como cortar os pulsos e tomar diversos narcóticos.
É curioso como no fim a personagem entra em uma sala para não saber se vai ficar bem ou não. Como foi uma quase autobiografia de Sylvia e escrito quase no fim de sua vida (a autora se suicidou tomando uma série de narcóticos e colocou a cabeça no fogão, ligando o gás), logo podemos supor que a própria autora não sabia se iria sobreviver e destruir sua redoma ou acabar em um fim trágico, o que realmente aconteceu no final de sua própria história.
  Os personagens, algumas vezes, parecem não possuir alguma importância na história, mas possuem. Eles são a visão que Esther tem do mundo, como Buddy Willard, um antigo interesse amoroso de Esther antes mesmo de ela entrar em depressão e que ela insiste chamar de hipócrita. Na verdade, para ela, a maioria das pessoas são falsas e e hipócritas, coisas que ela pensa, pois ela já entrou uma intensidade muito grande de si mesma, então, tudo o que ela sente, é mais profundo do que qualquer outro sentimento ao seu redor.
Mais curioso ainda é como para uma parte do mundo esse livro fez tanto sucesso e para uma outra parte, nem tanto. Por exemplo, um trecho do livro é muito conhecido por seus fãs, que o tatuam na pele "I Am, I Am, I Am". Eu concluo que é um livro muito bom de se ler- isto é, se você tiver prazer nesse tipo de leitura, extremamente profunda, de uma pessoa que tenta se encontrar do início ao fim.


Eu respirei fundo e ouvi a velha pancada do meu coração. Eu soueu soueu sou- Página 199