quinta-feira, 12 de maio de 2016

Resenha- De Madame Bovary ao Primo Basilio


 (Esse post tinha sido feito para o extinto site Parada Literária. Portanto, algumas resenhas eu transferi de lá).



Antes que possa começar a leitura desta resenha, farei um pedido que não costumo fazer a cada texto relacionado às leituras que fiz. Primeiramente, eu sugiro que a leitura dos dois livros que mencionarei nas próximas linhas tenha sido feita. Como é sempre desagradável a presença de spoiler, gostaria de não me sentir responsável sempre por cada revelação do livro e, portanto, algumas pessoas têm o costume de confundir resenha com resumo.
 Madame Bovary e O Primo Basilio são duas das leituras que fiz há pouco tempo, uma atrás da outra. São duas histórias que, como sabem, tem um fundo muito parecidos e personagens mais ainda. As histórias publicadas com vinte anos de diferença (Madame Bovary em 1957 e O Primo Basílio em 1978), tendo uma maior influência sobre a outra. Eça de Queiroz (1845-1900), a se inspirar na obra de Gustave Flaubert (1821-1880) em outro lugar, mas com os mesmos objetivos: a visão da sociedade pelo Realismo.
É curioso como conforme evolui a visão das pessoas nada mais poderia espantar, ao mesmo tempo que os dois livros podem ser comparados com a vida atual. Uma dessas coisas é a sexualidade feminina, tão julgada no século XIX; tão julgada hoje como se estivéssemos ainda no século XIX.
Eça à lá Flaubert
Poderíamos dizer que, o que impressiona nos textos são suas principais semelhanças, a ponto de pensar se Eça era um aliado de Gustave ou apenas queria impressionar os portugueses com uma obra parecida à sua, se ele tinha uma mentalidade tão aberta quanto seu colega francês ou se aquele livro o deixou anestesiado, como alguns leitores, ou seja, aquela sensação de "como eu gostaria de ter escrito essa história...". É claro que julgar dessa forma tão precipitadamente é errônea, todavia, pois as duas obras, mesmo tendo o mesmo objetivo, não são totalmente a mesma coisa. A começar por suas personagens principais e seus temperamentos.
Mesmo que os autores tivessem uma boa intenção ao colocar no papel os comportamentos da sociedade, é bom pensar também que eles mesmos viviam nela e poderiam muito bem estarem se censurando ao mesmo tempo. Todos em uma sociedade têm defeitos ou cometem erros, imperdoáveis ou não- de acordo com a moral de cada um. Um exemplo disso é a escolha de uma personagem mulher para o papel de adúltera.
Pode-se interpretar também que, independente de ser um homem ou uma mulher, as circunstâncias poderiam ser a mesma, dependendo do espaço. Mas não. É uma incógnita sobre o que os autores pensam de se o fosse o homem nessa situação. Será que ambos os autores seriam também algum desses personagens?  Seria um tanto complicado alguém escrever sobre as pessoas à sua volta e seus defeitos e no fim de tudo ser apenas um apontador de erros.
Luisa e Emma
Emma Bovary
Eis aqui um dos exemplos de diferenças nas obras. Ambas cometem o mesmo erro e têm o trágico fim, porém têm, também, finalidades diferentes, para tudo, inclusive. Emma Bovary é uma moça que enxerga a vida como os livros românticos que lê. Tem a idealização de um homem de grandes qualidades (segundo ela, bonito, rico, inteligente, corajoso, etc. Rico é qualidade?) e de uma vida de acordo com sua postura de dama. Para uma camponesa, é uma mulher com atributos- físicos, principalmente- de uma aristocrata.
O problema é viver como se realmente fosse uma, ou seja, tudo à sua volta que não fosse de seu nível era medíocre. Sua vida é resumida em tédio e sofrimentos (desnecessários). A pobre moça então logo se casa acreditando que Charles Bovary é o príncipe de suas novelas que tanto esperava, o que acaba em um belo engano. Aliás, tudo o que acontece consigo é um engano. Não se mudaria para Paris, seu marido é entediante e não entende nada de romances, as pessoas à sua volta não sabem como se vestirem adequadamente, além daquela cidade ser um palácio de tédio.
Ela vivia a procurar à sua volta quem seria o infeliz de tanta infelicidade em sua vida, até que um belo e distinto rapaz chamado Rodolphe compreende sua alma, pelo menos, por alguns meses. Esse relacionamento deixa uma incógnita quanto ao amor de Rodolphe à Emma. Claro que, o rapaz foge desesperado de seus braços duas vezes. A princípio pode-se dizer que seus sentimentos à moça são verdadeiros, mas Emma é uma mulher possessiva e obcecada, deixando Rodolphe sufocado com as pressões. Fora que o narrador é onisciente, sendo que, ele pode não estar julgando os comportamentos dos personagens como certo ou errado e sim, somente os explicando. Rodolphe é um homem polido, mas é aquele sujeito que procura tirar vantagem das coisas e pessoas depois contá-las por aí.
Outra investida da moça é no rapaz Léon, bem mais novo do que ela. Emma é uma moça muito bonita, não lhe faltando pretendentes mesmo casada, mas Léon é aquele garoto que ainda está para se tornar um homem, portanto seus amores para ele podem parecer eterno e a qualquer sinal de dificuldade, é motivo para desistência. Por esse motivo, é um homem fácil de ser manipulado, já que é cheio de inseguranças, assim como seu marido Charles.
Mesmo tendo um bom coração, Charles não é um personagem que possa ser absolvido. É conformado e apaixonado, sendo que, qualquer coisa que sua esposa diga ou faça, é para ele amém- afinal de contas, Emma colocou até a própria moradia para penhorar. Se ela está mal humorada (o que é constante) e infeliz, a culpa é dele mesmo. Para um homem daquela época, poderiam chamar-lhe frouxo. Não saberia conduzir sua própria família, mas o ruim desse personagem é a sua falta de opinião para qualquer problema ou circunstância.
Emma tem uma personalidade forte, sendo de espírito fraco. Ela consegue se enlouquecer e colocar tudo à baixo com sua loucura. Não consegue enxergar a realidade e tudo o que acontece- ou não acontece- é culpa de terceiros. É uma humana que desejava ser um passarinho livre para voar por todos os lugares, mas se fosse um passarinho, se fecharia e se enjoaria de voar sempre por aí. Fica, enfim, em um ciclo vicioso, que mesmo que não tivesse se envenenado, ela teria se matado aos poucos.
Entretanto, a personalidade de Emma é, também, como poderíamos dizer, de uma mulher muito à frente ao seu tempo. Ela tem uma vida sexual (mesmo que adúltera) livre e, provavelmente, se não fosse casada, assim seria. Não se importa com as más línguas. Tudo o que mais importava era seu bem estar.
Luisa 
Sobre a portuguesa não pode-se dizer o mesmo. Bem, ela não tinha uma mente tão avançada como Emma. Era uma moça, vista por outros olhos, como prendada, de instinto maternal e recatada. Assim como Emma, Luisa era encantada por livros de romance. Tinha também uma visão da vida um tanto cor-de-rosa, mas ao contrário de madame Bovary, ela já encontrara seu príncipe encantado, seu marido Jorge. Luisa tinha grande respeito por ele e era sim apaixonada. O grande problema da moça é que era ingênua e carente. Acreditava em tudo o que lhe dissessem e, com a viagem de Jorge, se encostava nas pessoas. Com Basílio por perto, a afeição e a carência aumentava. Era possível ver um pouco de Rodolphe em Basílio, dois verdadeiros dandys, entretanto, o primo não tinha sentimentos mais profundos a não ser carnais e objetivos nada pueris.
Luisa parecia ser mais bondosa, enquanto Emma tinha um mal caratismo dentro de si. A dependência de um homem ao seu lado a deixava guiar mais por seus instintos do que tentar distinguir o que era certo e o que era errado. Luisa às vezes se transformava e criava uma mente maliciosa em querer que seus caprichos fossem satisfeitos, mas era a malícia alheia que a vencia e todos os desejos de terceiros eram, na verdade, satisfeitos por ela.
Ela, de tão ingênua, não conseguiria distinguir um homem de caráter, que ficaria ao seu lado de um que apenas a vê como um simples pedao de carne. A cada frase bonita de Basílio, uma ou outra está coberta de possessão e desrespeito. Mas a pobrezinha não enxerga. Basílio é aquela pessoa que talvez seria uma ótima companhia à Emma: é pedante, orgulhoso, nada abaixo do luxo lhe é aceitável e nada nem ninguém podem alcançá-lo.
Jorge é um personagem muito curioso. Ao mesmo tempo que é um homem de confiança, polido, humilde e respeitador, trai Luisa em sua viagem. Ele é aquele cara que trai-mas-mulher-não-pode-trair. O deslize dos homens é aceitável, mas de sua mulher, nunca. Imagine! Sua mulher tem que ser pura! Mas de uma coisa é certa: Luisa e Jorge se amavam, mesmo entre seus deslizes, um acaba perdoando o outro.
O que Luisa tinha de camponesa e não era, Emma era uma lady em meio ao campo de trigo. Não dá para se dizer que, mesmo pulando a cerca, Luisa fosse esperta. Ela acredita no amor de Basílio e é por ele que acaba perdendo a cabeça.
A Sociedade de Queiroz e Flaubert
Há dois personagens que têm temperamentos parecidos, Julião e o Sr. Homais. Julião é um homem não muito instruído, mas que acredita que sabe mais que todos e tem a resposta para tudo. Homais é um homem mais instruído que Julião, mas que também acredita que pode resolver qualquer problema. Ambos são ignorantes e têm uma mente fechada e atrasada para as coisas. Donos de um grande orgulho, sempre quando procuram abrir a boca é para sair algo desagradável.
Julião tem vergonha de sua colocação social e costuma esconder isso da maneira que fala. Faz críticas constantes aos outros e procura sempre encontrar o que há de errado na sociedade e sempre tem uma solução para esses erros- que parece vindo da Idade Média. Ele é um homem careta no século XIX. Sim, ele é mais careta que as próprias pessoas desse século. Um médico que não tem muitos anos de experiência e se comporta como tal; uma pessoa que vê problemas e bagunça em tudo, mas que não se esforça para mudar, apenas tem o prazer de reclamar para ganhar curtidas... Ops! Ganhar admiradores.
Homais é um homem que também insiste em criticar, mas que por si só é um hipócrita ambulante. Farmacêutico, exerce a função sem licença, é manipulador e tem asco de pessoas pobres. Sendo ateu, é contra a intolerância e pratica-a diariamente. Não tem respeito pela religião alheia nem por Deus de cristãos, fazendo assim de Voltaire um deus. Um homem que se diz não ter medo de nada, mas basta-lhe tirar o sangue que desmaia. Sua amizade é um tanto desconfiável e tem interesses.
Um personagem que senti um tanto de pena, a princípio, foi Juliana. É uma mulher que não tinha recursos e nem nascera com sorte para nada, mesmo sendo esforçada no início de seus trabalhos. Como não dá para se comparar aos tempos de hoje, era uma coitada, de fato. Mas, para que tanto ódio por quem nunca lhe fizera nada de mal? É a mesma coisa que pobre culpar uma criança por ter nascido rica. É a inveja e a maldade. Ainda existe pessoas desse tipo, que procuram culpar outros por seus sofrimentos. Um personagem que é, de certa forma, agradável é o Comandante Acácio, que completamente diferente de Julião, tem a mente mais aberta para as coisas e não costuma reclamar o tempo todo, entretanto, não consegue assumir a relação com a própria empregada.
 Leopoldina "Pão-e-queijo", uma adúltera experiente, é tão livre quanto Sra. Bovary. Tem uma vida sexual normal demais para a época. Difícil seria dizer se ela influenciou Luisa para estar com Basílio, mesmo que sem saber, pois Luisa pode ter usado também seu próprio lado malicioso. Uma passagem da estória que não se pode deixar esquecer é a possível bissexualidade de Leopoldina: "nunca- exclamou- nunca depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!". Outra coisa curiosa, pois, ela não era a pessoa mais correta, pois a atração pelo mesmo sexo oposto é escrito como algo errado. Leopoldina, na estória, não tem , praticamente, qualidades. É quase descrita como uma mulher que nascera com o destino traçado de ser uma cortesã e que todas suas atitudes eram motivo de reprovação.
 Conclusão
As duas obras não deixam dúvidas sobre o comportamento humano, mesmo sendo aprovado hoje ou não. O que pode ser interpretado apenas com uma simples observação dos autores, ao fim, pode também ser interpretado como um mero moralismo. Ainda mais vindo do escritor Eça, que já viveu uma vida libertina. O mais impressionante é que a mesma observação de dois séculos atrás ainda é feita- sendo julgada ela certo ou não, isso dependendo da opinião de cada um.
Como já foi dito, também não se pode afirmar que a obra de Queiroz é apenas uma versão aportuguesada de Flaubert, mas se for uma visão diferenciada, pode-se ver como a imagem da mulher era na época. Muito sentimentalista, entediada e que, por não ter tanta liberdade de pensamentos, entre outras coisas, ela procura apenas o amor eterno para preencher o vazio que há nela. Mesmo com tantos erros cometidos, o homem era perdoado- ou ainda é- por terceiros. A mulher é apenas um poema- não que seja ruim-, mas que necessita continuar a ser pura e limpa- e que, infelizmente para eles, não poderiam continuar virgem.
Inclusive, a imagem de Jorge ao perdoar Luisa, poderia ser a própria imagem de Charles, que aos olhos de Flaubert é descrito como um homem fraco. Entretanto, a traição de Jorge é quase que obrigatória o perdão. Se fosse ao contrário, será que eles escreveriam um livro criticando a traição masculina ou apenas a hipocrisia já é o suficiente? Quem sabe.

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